Turismo em áreas de conservação aumenta 300% em 12 anos

do [Diário de Petrópolis]

APA-Petrópolis é a terceira mais visitada do país.

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Foto: Luana Manhaes – Parnaso (do Diário de Petrópolis)

Nos últimos 13 anos, o turismo em áreas protegidas aumentou mais de 300%, chegando a 15 milhões de visitantes em Unidades de Conservação (UCs) federais em 2019. E a Área de Proteção Ambiental de Petrópolis (APA-Petrópolis) é um dos três locais com os maiores índices de visitação atrás do Parque Nacional da Tijuca, no Rio, e o Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná. O estudo, com dados do ano anterior à pandemia, é do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão do Ministério do Meio Ambiente responsável por gerir as reservas federais e foi usado pela Fundação O Boticário para desenvolver um análise sobre o cenário atual e o potencial turístico dessas unidades com ações que devem ser desenvolvidas.

O Petrópolis Convention & Visitors Bureau, que congrega empresas dos setores de hotelaria, gastronomia e prestadores de serviço, está participando do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Condema) para acompanhar e propor ações públicas de proteção, incluindo a APA-Petrópolis e ao mesmo tempo valorizar guias e empresas que promovem o acesso ao ecoturismo. A entidade pretende levar ao Conselho a experiência recente do trade ainda no período pandêmico e que vai ao encontro do potencial de desenvolvimento sustentável de unidades de conservação.

São várias modalidades de turismo em crescimento no Brasil e no mundo como o de isolamento, de observação e contemplação, pontua o hoteleiro Flávio Câmara, representante do PC&VB no Condema. “O ecoturismo e o turismo de experiência são fortes em Petrópolis e pode ser ampliados. Os Portais de Hércules, no Parnaso, são um cartão-postal do Brasil no exterior, por exemplo. E todo este acervo precisa ser preservado. É isto que estamos levando ao Conselho, além do turismo rural e ferramentas como sinalização além da conscientização do público seja nas escolas e nas vizinhanças dessas joias. É preciso preparo e envolvimento da população em geral para que seja um turismo sustentável”, pondera.

Petrópolis está conseguindo uma expressiva recuperação do turismo porque investiu diferente baseado na conjuntura que se apresentava. “Os visitantes, no período pandêmico, mas já com alguma flexibilização, procuraram por áreas rurais, passeios ecológicos e espaços amplos. A Petrópolis, que vai de um extremo cultural até este lado de contato com a natureza, começou a receber mais turistas com este perfil e seguiu rígidas regras de segurança sanitária. Isto fez com que tivéssemos um fluxo constante a partir das primeiras flexibilizações. Não é tão intenso como antes, mas o importante é que contínuo”, considera Fabiano Barros, presidente do Petrópolis Convention & Visitors Bureau.

A APA Petrópolis recebeu cerca de dois milhões de visitantes em 2019 e suas principais ‘vitrines’ são a Reserva Biológica de Araras e o Parque Nacional da Serra dos Órgãos unidades de conservação mais conhecidas na cidade. Segunda maior do Estado, a APA Petrópolis, foi criada em 1982, com área total de 592 quilômetros quadrados, localizada na porção central do estado do Rio de Janeiro e inclui terras de Duque de Caxias, Guapimirim e Magé.

De acordo com levantamento do ICMBio e que baliza o estuda da Fundação O Boticário, das 137 unidades de conservação pesquisadas com contagem de público, apenas 22 concentram 92% do total de visitantes. O levantamento aponta as condições mínimas de infraestrutura em áreas naturais que precisam ser desenvolvidas para consolidar este tipo de turismo como uma estratégia fundamental para alavancar o setor no Brasil, distribuir melhor a visitação e a geração de renda a partir dessa atividade, além de despertar na população uma atenção especial para o patrimônio natural do país.

Fabiano Barros acredita que agora boa parte das ações do trade é voltada para este perfil em busca de contato com a natureza, uma tendência que vai permanecer dentro do “recomeço verde” (green recovery) como classifica a Organização Mundial do Trabalho. Mesmo com todas as perdas sofridas com a pandemia, segundo a OMT há uma perspectiva de rápida recuperação já que o recomeço verde traz soluções para emergência climática, garante crescimento responsável e ainda gera oportunidades inovadoras e sustentáveis para milhões de pessoas em todo o mundo.


 

 

Não Basta Atrair Turistas

PAULO HANSTED – Empreendedor com formação em Marketing na Universidade da Califórnia

(publicado originalmente na Tribuna de Petrópolis)

Paulo Hansted
Paulo Hansted

Há alguns anos, quando a banda larga e os smartphones ainda engatinhavam no Brasil, fui chamado por uma grande empresa de telefonia móvel para participar de um desafio para o qual ninguém tinha uma resposta. O desafio envolvia o governo de Santa Catarina e algumas de suas mais lindas e festejadas cidades, Florianópolis, Balneário Camboriú, Blumenau e Joinville. Como introdução sabia apenas que a missão girava em torno uma inquietação do governador com o tema turismo. Sendo um razoável conhecedor do quanto é difícil fazer turismo em nosso país, imaginei que a pauta envolveria a ambição de se atrair um maior número de visitantes para a região.

Os investimentos na área de turismo no Brasil são pífios, se comparados até mesmo com países vizinhos. Enquanto Colômbia e Equador, investem algo em torno de US$ 100 milhões por ano, por aqui os investimentos não chegam à casa do US$ 20 milhões. Não fica difícil compreender porque ocupamos apenas a 7ª posição no ranking de países mais visitados na América, e não figuramos entre os 50 destinos que mais atraem turistas no mundo.

No entanto, Santa Catarina possuía três cidades entre as 10 mais visitadas por estrangeiros no país em 2016. Florianópolis, Bombinhas e Balneário Camboriú, ocupam a respectivamente a segunda, sexta e oitava posições no ranking. Por conta disto, e somando-se ainda a força da região na atração do turismo interno, o então governador Luiz Henrique da Silveira expôs um cenário ainda mais complexo e surpreendente, que nos fez compreender sua inquietação. Ele dizia que o desafio de Santa Catarina não era o de atrair mais turistas e sim o de dinamizar o valor econômico gerado pelos turistas.

Sim, a questão é simples de se compreender e não é uma particularidade de Santa Catarina. Estados e municípios fazem de tudo para atrair visitantes, no entanto a falta de estrutura de suporte e orientação adequados, fazem com que estas pessoas que chegam acabem por interagir pouco com as cidades. No raciocínio lógico do governador, um turista que por ausência informação organizada e disponibilizada na hora e da forma correta, visite hipoteticamente cinco destinos na cidade, vai deixar recursos, dinheiro para ser mais claro, restrito ao universo limitado de ambientes com o qual interagiu.

Do contrário, se a estrutura de acesso a informação sobre o que pode fazer na cidade for farta e disponibilizada da forma adequada, os estímulos para interagir com mais locais se multiplicam. Desta forma, visitando mais lugares, se envolvendo mais com tudo o que a cidade pode oferecer, este mesmo turista consome mais, gasta mais e por conta disto, movimenta mais a economia, deixa mais recursos na região.

Segundo a Santur (Secretaria de Turismo do Estado de Santa Catarina), em um período de temporada o Estado recebe algo em torno de 5 milhões de visitantes, que permanecem um tempo médio de 4 dias na região e movimentam um ticket médio na casa de R$ 300 durante a permanência, um valor muito baixo, reflexo da ausência de mecanismos de inteligência e suporte. Se há 5 anos, os mecanismos para dinamizar de forma coordenada as ambições do governador eram ainda um tanto escassos, com a popularização e disseminação da banda larga e das plataformas digitais, não há mais justificativa para não se reorganizar esta equação. Com um investimento coordenado, soluções multiplataforma especificamente desenvolvidas para este fim, podem transformar cidades analógicas em cidades interativas. Onde quer que esteja, da forma que preferir, o turista pode ter acesso a um pacote de informações e estímulos que vai estreitar a relação de engajamento com tudo o que a cidade oferece.

Na web, onde as pessoas tendem a ter menos pressa, o usuário pode estabelecer os primeiros contatos com a região e suas atrações. Dinâmica essencial até para se planejar e decidir pelo destino. No mobile, quando já no local, o turista pode consultar e receber estímulos personalizados de atrações por perfil, distância, gênero, a cidade na palma da mão. Através de códigos bidimensionais aplicados a atrações turísticas e fazendo uso do celular, pode-se acessar vídeos, textos e fotos que vão enriquecer a experiência do visitante.

Como resultado, mais turistas vindo, mais turistas indo e compartilhando suas impressões positivas, mais dinheiro circulando, gerando empregos e desenvolvimento para a região. Quem ganha com isto? Os turistas, o comércio e o próprio cidadão. Estimamos que a adoção do sistema de cidades interativas na região, possa não somente aumentar o tempo de permanência, mas acima de tudo dinamizar o valor econômico gerado pelo turista, podendo mais do que dobrar o ticket médio de consumo.

A ambição do governador estava certa, de nada vale atrair mais turistas, se antes não se oferecer a estrutura de suporte necessária para estimular o engajamento. Ao empoderarmos o turista, a cadeia de benefícios tende a ser exponencial e o poder de conversão de valor passa a traduzir efeitos determinantemente superiores aos custos e energia necessários para atrair ainda mais visitantes.